Jogue com todas as cartas




















 Foto: © Cesarr Terrio



Então eu sinto um aperto no peito. E uma voz vive me dizendo: prefira permanecer em silêncio. Prefira permanecer em silêncio. Porque toda vez que você abre a boca, acaba entregando tudo que tem no seu coração. E as coisas do coração são perigosas. Ora são pesadas, ora são armas. Depende de quem carrega, depende de quem aponta. E de principalmente quem vai ser baleado. Então eu olho ao redor, vejo que todos já estão munidos, esperando, talvez, que eu abra os braços e exponha bem do lado esquerdo, um alvo. Não há para o que implorar. Dizer o que? Pedir clemência, pedir que tenham piedade? Não, pois eu nunca tive. Cresci derrubando as pessoas que lutaram pelas mesmas coisas que eu. Cresci gritando ao mundo o quão é importante batalhar mesmo enchendo as mãos de sangue. Cresci reescrevendo mil e mil e mil vezes no meu caderno de notas, a frase: “Não permita que ninguém te afaste da vitória”. E nunca permiti. Então, não tenho o direito de pedir perdão. Eu sei o que é estar ferido; eu estou ferido agora e sentado no chão, no mesmo chão em que pisaram os derrotados.  E, como sempre, sozinho. Mas, enfim, também aprendi a me recompor. E só fechar as asas um instantinho, e um pouco de gelo. Afinal, com gelo, toda dor passa. Deixe que todos os outros deem seus passos apressados, que corram pelas suas estradas. Deixe que vão, enquanto eu estou aqui, parado. Deixe que vão, deixe que vão, porque eu sei voar. E porque eu não sou de desistir, jamais. Mas essa é a lição: tenha prudência, tenha prudência, tenha prudência; é o que agora a voz diz na minha cabeça. E deixe de ser besta, porque em terra que todos têm sede, ninguém vai esperar pra ser o último a pegar no balde. Mas não espere pelo balde, nem brigue pelo balde, ache o poço. Hoje eu cometi um erro, um grande erro. Contei a todos inocentemente uma de minhas verdades. Contei por achar besteira, mas verdades são facilmente transformadas em qualquer coisa. Eu nunca deveria ter confiado. E agora estou morrendo de medo, pois ela há de passar de boca em boca. E eu não sei o que andaram dizendo aquelas bocas: elas vão distorcer e me espalhar por seja lá onde for. E cada nova pessoa que dessa forma me descubra, há de acreditar no que não sou. E eu tenho medo, porque vi  isso acontecer, sei como funciona.  E eu rezo, e eu rezo para que alguém me proteja. Quem vai? E por quê? É melhor para todos que eu continue padecendo caído na calçada dos aflitos. E mesmo que existisse uma só alma caridosa, porque o faria? Eu sou um idiota cheio de devaneios, Mas todo devaneio é somente reticência. Eu estou acostumado com as conclusões. Com os resultados, com a vitória. E mesmo tendo esse coração burro feito só ele mesmo, eu tenho uma alma fria. Fria que nem como só quem já chorou muito sabe ter. Eu tenho o coração remendado, a ponto cru; façam o que for, podem me derrubar, podem e muito e com força. Mas só para ter certeza de que não vão mais esquecer, aproveitem e corram o mais rápido que puderem nesse tabuleiro. Sou velho no jogo, não tenho somente dois dados na mão, tenho quantos quiser.



A dor também salva, pensei.
Foi chorando que eu cresci.
(Cris Carvalho - Chão de Estrelas)


10 comentários:

Jéssica Trabuco disse...

Se sabes jogar esse jogo, jogue limpo. Se sabe onde achar o poço, ache-o mas não deixe de dividir a água com o outro ;)
Ótimo post.

A Escafandrista disse...

"... toda vez que você abre a boca, acaba entregando tudo o que tem no seu coração". Isso parece que foi escrito pra mim!

Obrigada pelos seus textos, querido. É sempre uma alegria vir aqui.

Naty Araújo disse...

Que coisa mais, mais... Inacreditável!
A doçura, a leveza e a petrificação em suas palavras.
Nossa! Estou em choque. Eu fiquei lendo e esperando o que pudesse estar no final e me surpreendi.
Porque apesar dos lamentos, logo no início, houve uma reviravolta no final. Adoro essas coisas rs.

Que estupendo, Cristiano.

Li o texto do nosso amigo Rodolpho, em contos fraqueados, e te achei por lá.
(Só pra constar a minha presença).

Belíssimo! Parabéns!!

Fearless disse...

O seu texto ficou incrivelmente perfeito (acredite se quiser, é raro eu dizer isso). Sou obrigada a dizer que, desde ja, serei seguidora eterna do blog. Parabens, e muito sucesso. Seu talento é imenso.

Rodolpho Padovani disse...

É caindo que a gente aprende a levantar, é perdendo que aprendemos o valor da vitória e assim não queremos abrir mão disso. Mais uma vez eu venho aqui me encontrar em várias linhas. Lendo o texto eu lembrei de uma frase que minha mãe costuma dizer "O mundo é dos mais espertos", então temos que aproveitar os dados e jogar bem enquanto a partida durar.

Abraços!

Danny disse...

Voltei????
Sempre estive aqui a ler-te, sempre...

Danny disse...

Ahh e parabéns pela UFS.

Parabéns à nós, Passei IFSP.
lol

=)

A Escafandrista disse...

Adorei saber que sou rococó!!! kkk
Beijos, querido!!!

Stella Valim disse...

Ah! que lindo cara :)
Parabéns ai pelo blog e muiiiiito sucesso!
http://plush-love.blogspot.com/

Pamela Dal'Alva? disse...

aiai, tão belas palavras.. são poucos os blogs q vejo q a pessoa usa e abusa das palavras ..
kisu