Discurso de finalidades *















©Irisz Agócs


Tenho comigo a historinha de um homem chinês que nunca se adiantou para nada. Deixou a vida escorrer, e depois que os bigodes ficaram brancos, tornou-se poeta. Sua maior obra foi um poema de três palavras, escrito numa pedra, entitulado Saudade, que se diga, de tudo que não conheceu em sua vida. Conta a historinha que, depois de terminado, o poeta arranhou por demais as palavras, até o ponto de que não mais pudessem ser lidas. Nunca se soube o que exatamente o poema dizia, mas as palavras rasuradas continuaram com toda a sua poesia. Porque a saudade não se lê, só precisa ser sentida. Que a vida se pinte de legitimidade, sempre digo. Tem gente demais vivendo sem objetivos, é uma vida sem finalidade. Só se vive por alguma razão, temos de sabê-la, não podemos correr os riscos de não. Adoro as indagações. Esse monte de porquês que a gente carrega no bolso, essas dúvidas de sempre e de nunca mais. É justo viver se perguntado sobre todas as coisas, e conhecendo, e estudando, e descobrindo o que não se sabia. Temos de viver nos permitindo surpreender, permitido que a vida se precipite em questionamentos e magia. Pois duvidar, desconhecer, é também objetivo para se viver. Vivemos enquanto temos perguntas, morremos, de fato, quando possuímos todas as respostas, ou quando, tragicamente, abrimos mão de buscá-las. A vida é dessa coisa de ter sempre algo o que fazer; dias tristes são dias vazios. Não consigo suportar essa ideia de sentar e esperar. Defendo o princípio de que temos de construir todos os nossos caminhos, de que há sempre tijolos para recomeçar, de que destino é algo que agente inventa.

Vamos inventar, também digo. Ter coragem de correr atrás de sonhos, de ter fé nos sonhos, de ter esperança nos sonhos e, melhor, fazer sonhos novos sempre. Que nossa poesia seja diferente; uma tese enorme cheia de bibliografias, epígrafes e anexos; que seja alegria e a gente não se arrependa do tempo que passa, das coisas não ficam, de quanto foram espontâneas as decisões tidas. Que a gente tenha dessas asas bem grandes e esteja sempre preparada para as aventuras de cada dia. Que não peguemos as mesmas ruas, que não sejam as mesmas conversas, as mesmas pessoas no ônibus, a mesma comida, a mesma maneira de enxergar a vida. Que aprendamos a ser gratos, por cada vez que acertamos e pelas que erramos também. Que descartemos a paciência e tenhamos pressa por sentir o gosto do novo na boca. Que jamais desanime-mos. Que, enfim, o amor não estagne, que as preces não morram, que as pessoas que gostamos não se afastem e que não nos falte disposição para sorrir nunca, jamais, que não passe nem pela nossa cabeça desistir. Que, de verdade, seja sempre, sempre assim. Porque viver, não esqueça, é otimismo.
Sempre digo. Sempre digo.



"O riso é tão sagrado quanto a prece."
(Osho)





Para 'Discurso de Finalidades', venha por aqui.
Publicado no Jornal InformAção, no dia 10/05/2011.

E com essa crônica, me retirei do Jornal Informação. Foi um período produtivo lá, mas não para mim. A criatividade foi sendo escassa, e findei por não publicar aqui, que é minha casa. Andei errado, mas voltei.
Porque aqui sempre foi o meu lugar.

Um comentário:

Carolyne Mota disse...

Acredito que viver é isso, é ir atrás do que almejamos, lutar por aquilo que achamos certo e não desistir toda vez que algo desandar.
Acredito que nós construímos nosso caminho e que viver bem só depende unicamente de nós, basta saber viver e ter sempre um sorriso no bolso pra nunca entristecer.
Fico muito feliz que tenha voltado, Cris. E que sua volta seja definitiva porque aqui não é o mesmo sem suas palavras.

Obrigada pela visita e não esqueça, será sempre bem-vindo por lá.
Um abraço!