Sal a desgosto
















Foto: © Cesarr Terrio




Quando eu cheguei, as cores já estavam aqui. Meu quarto estava iluminado por um sol qualquer de fim de tarde, e sobre minha bancada quatro livros dormem. A casa inteira dorme e eu adoro esse silêncio. Parece que, nos dias em que estou triste, meus sapatos ficam mais apertados. Logo eu, uma pessoa que ama andar de pés descalços. Parece incrível, mas a saudade muitas vezes me faz companhia. Há lembranças de momentos bons espalhados por todos os lados. Eu não sou infeliz, não sou. Mas vivo me sentindo desfalcado. Já cruzei os braços para tantas coisas! E incontáveis foram as vezes que acreditei em coisas erradas. Uma coisa que eu nunca pedi foi perdão. Não entendo porque as pessoas pedem desculpas pelo que cometem contra a si mesmas. Assisti um filme em que o cara diz "Desculpe, mas eu te amo!". Como assim o amor deve ser perdoado em confissão? E como assim eu sempre acabo escrevendo sobre o amor? Mas vou ser bem sincero, com você e comigo. No fundo, no fundo, a gente sabe que amor rege todas as coisas. O fato de você fazer qualquer coisa, diz respeito a quem você é. Se você trai, se rouba, se bate ou se apanha, diz respeito ao que você sente, diz respeito ao seu amor. Respeito. Respeito! E você também sabe que falta respeito. A gente primeiro respeita os outros em vez de nós mesmos. Não lembro qual foi o dia em que sentei e perdi a tarde toda comigo. E não, não é egoísmo. Estou cansado de escutar que sou egoísta, enquanto sou plenamente ciente de que não sou. Só o amor pode me julgar. Só o que cabe no meu peito pode me julgar. Você não. Ninguém não. Deus é puramente amor. Meus pés estão doendo apesar de já ter tirado os sapatos. Eu não sou uma pessoa cruel por amar, sou?

8 comentários:

Pontos de Ligação disse...

"Como assim o amor deve ser perdoado em confissão?" Já me perguntei isso tantas vezes...
Por que o que deveria ser obrigação de todos nós, torna-se uma vergonha para alguns? E por que tantos negam a verdade que nos rege a vida?
Que o amor salve os que ainda acreditam e esperam nele! Afinal, só ele pode nos julgar...
Preciso dizer que amei o texto?

Letícia

Jυℓyαnα ツ disse...

"[...]Como assim o amor deve ser perdoado em confissão? [...]"
Eu já me perguntei isso!
E não, ninguém é cruel por amar.
As vezes o amor que pode-se mostrar cruel ou a situação amorosa em que você se encontra.




;*

Roberta Mendes disse...

Descalço, as solas dos pés ainda assim latejam de caminhos. Não se é cruel por amar. Embora se possa ser cruel, amando. Nem amar é coisa por si cruel. O problema é que entulhamos os caminhos de entraves. Como se o relevo não fosse suficientemente desafiador. Avaros são todos os que não confessam quando amam.

Nini C . disse...

"Não, eu não sou infeliz..." Me identifiquei mto com teu texto. Mas como as meninas já falaram tudo, só vou dizer que adorei ;)

A Escafandrista disse...

criiiissssss, que gostoso de ler... nossa.. nessa agora vc se superou (ou eu estou mais sensível às suas publicações? rs). beijos, querido. boa noite.

Brunno Lopez disse...

Sim, você é cruel.
O amor é uma insanidade e compactuar com sua ideologia é o mesmo que se inscrever numa guerrilha pra manusear armas de fogo.
(claro que isso é uma mentira).

Algumas das coisas que escreve se parecem com o que costumava escrever.

Demorei, mas voltei aqui.
Um abraço, belo texto.

Rodolpho Padovani disse...

Me sinto exatamente assim diversas vezes, cansando, com os pés apertados mesmo descalços, querendo um tempo só para mim sem ser tachado de egoísta, sem julgamentos de ninguém. O amor deve mesmo ser o grande regente do mundo e de tudo, e espero que quando ele decidir reger a minha vida, que seja bom.

Abraços.

Kira. disse...

Alguém que escreve tão lindamente e sensivelmente não pode ser cruel =} Lindo texto.