O irrefutável e o mundo



















 Foto: © Cesarr Terrio

Quando me dei conta um grande muro de orgulho se apresentava a minha frente. Áspero, reboco mal feito, acinzentado. Eu tive de escalar, porque para trás eu não planejo nunca voltar. Mãos nas quinas dolorosas, fui subindo sorridentemente até me me dar conta de que já enxergava o outro lado. Era quase topo e eu já me sentia perdidamente cansado; como último gesto de esforço, carreguei o que restava de mim empurrando para baixo meus braços e subindo os meus ombros. Joguei uma perna por cima, e pronto! Havia eu chegado no ponto mais alto do meu mundo. Eu vi de um lado, um lado que nem eu conhecia. Já que estava ali, não custava nada dar um salto e caminhar por, talvez, o lugar mais feliz de minha alma. Entre sorrisos e girassóis, senti meu espírito descansado e olhando um pouco calmamente para aquele muro, agora mais parecido com uma velha e roída muralha, percebi que meus pecados não são tão injustos quanto eu pensava. Eu sei que errei muito nessa minha medíocre vida, mas nada que não possa ser perdoado. Andei me julgando inconsientimente e a cada condenação cimentava mais e mais a barreira do meu peito. Eu não preciso ser assim, não preciso de mim assim, dividido. Aliás, há poucas coisas de que realmente preciso e uma delas, com toda a fé - não certeza - , não é culpa. Abri os braços e me senti aliviado; eu não sou mais tão pesado, não há em mim essa tão absurda gama de vaidades. Abri os olhos porque a chuva veio me cumprimentar. Ainda de braços abertos sorri. Talvez eu seja um pouco chuva, imprevisível ou previsível dependendo da tarde. Eu venho e vou como e por onde quero, não peço convites e não faço promessas, que ninguém me acompanhe. Mas a vida não tolera esses grandes períodos de reflexão e felicidade. Minha doce chuva era então tempestade, minha vida também. E não sei de onde, uma rajada de vento atingiu me olho feito dois murros, para que eu nunca esqueça que com os olhos não enxergamos nada e que posso sonhar como for, sorrir como for, brincar como for; ainda existe uma dimensão inteira de possibilidades que não dependem de mim, ou de minhas reflexões para serem compreendidas. Há um risco muito sério em nos explorarmos, nossos medos nos acompanham sempre e, nossos medos são sempre acompanhados do irremediável. Abaixei-me desesperado, pensando "Por que? Por que, meu Deus? Estava tudo em paz, eu estava tão bem assim!". O sangue escorria, vermelho e febril, pelo meu rosto. Não fora o vento, fui atingido pelo mundo; e agora, mesmo tendo vencido meu orgulho, tenho que admitir que o mundo é muito maior que eu. Peguei então agulha cega e fechei, com sete pontos crus, os cortes no meu rosto e se aguentar a dor, com alguma coragem, posso fechar os de meu ego.

9 comentários:

Jéssica Trabuco disse...

o mundo as vezes parece bem cruel, nos machuca mesmo.
mas é pra gente aprender que por maior que seja nosso sonho o mundo é grande tbm.

Pontos de Ligação disse...

Me identifiquei taanto com esse texto... A gente tenta sempre ver o melhor, fazer o melhor... mas há coisas bem maiores que nossas possibilidades, mas hoje eu as aceito e até as aprecio. Somos pequenos e falhos, sim, mas sabemos tirar o melhor disso tudo!
A cada texto seu, você consegue me impressionar mais! E o melhor nisso tudo é que nunca perdeu as suas grandes emoções que tanto me inspiram...
Já falei que sou sua fã?

Beijos,
Letícia

A Escafandrista disse...

Oi, Cris. Saudades de vir comentar aqui (tenho a impressão que digo isso sempre que comento na sua oficina rs).

Adorei o texto, teus escritos parecem-me sempre realistas, profundos, delicadamente trabalhados, sinceros... a imagem lembra-me "o show de trumman".

Sobre o comentário que deixaste no meu escafandro, uma das leitoras citou Fernando Pessoa que dizia que o poeta é um fingidor.

Acredito que às vezes temos que inventar situações, pessoas e lugares para podermos escrever, mas independente de serem estas pessoas, lugares e situações verdadeiras ou não, acabam sempre sendo a verdade (às vezes oculta) de alguém. E, no fundo, os escritos acabam sendo daqueles que lêem.

Obrigada por este texto. Abraços!!!

Carolyne Mota disse...

É, o tempo passa, os sentimentos mudam. E o bom é que a gente muda com o tempo, e o que antes era preocupação, tristeza, se torna página virada. Afinal, temos que viver o que vem pela frente.
A vida é feita de mudanças e são elas que nos moldam, nos reconstrói.
E pelo visto, tens mudado também, e parece ser uma boa mudança. Seus textos continuam encantadores, realistas e doces. Gosto muito de sua oficina, Cris.
Um abraço!

Ariana disse...

Ainda bem que a gente muda com o tempo ne!
Muito lindo esse texto, tu escreves muito bem!


Beijos

Leonardo Filizolla disse...

Lembrei de uma música que a Elis interpretou que depois, Trovadores Urbanos regravou que eu não sei de quem é mas não vem ao caso, que diz:
' vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo MAS, aprendendo a jogar'
Adoro os teus textos.
Parabéns. ;D

Noe* disse...

Oi moço, gostei dos seus escritos!
Fico feliz que tenha gostado do meu blog e que tenha servido de inspiração :)
Ao ler este post me veio a mente dois trechos do qual gosto demais:

"O impulso para amar, para encontrar e conhecer e mergulhar no outro, é o que nos traz para perto da vida. E é por isso que quando se está de braço abertos, se está dando as costas para a morte."

(Caio Fernando Abreu)

"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos."

(Antoine de Saint-Exupéry)

=)

Um beijo =*

Ana e Dane disse...

ooi, adoramos o seus textos! estamos seguindo você *-*' abraço apertado ;D

Kira. disse...

Esse é um daqueles textos que faz com que a gente se pegue "com a mão na massa". Me identifiquei tanto...