Desaparato



















Foto: © Cesarr Terrio 




Eu tive medo de voltar. Não por desprazer ou por qualquer outra coisa, houve um tempo em que me senti entalado liricamente, em tanto e em tal ponto que por maior que tenha sido o desejo de gritar, o quarto perecia em silêncio. Talvez fosse um caso de tempo, precisava de tempo. Desejei que o tempo passasse, que o tempo corresse; e ao contrário de minha pressa, meu poder de dicionártio foi minguando até o finalmente de minhas canetas somente riscarem e não escreverem nada. Desesperado, estava mudo. E como último golpe de estupidez, abri a boca alarmando retumbantemente em silêncio por um socorro que não veio. Desisti de tentar, estava crente da ideia de viver num perfeito eco surdo. O tempo me obedeceu, desfilou em minha frente sem dó e vaidade. Então, quando dei por mim, minhas emoções estavam enrugando. E minha escrivaninha padecia em poeira e sob palavras raquiticamente quebradas. Seria necessário um sopro muito, muito semântico para desfazer isso. De minha garganta seca e ácida, não havia nem expressões prontas; tampouco imaginara esse fôlego tão vocabular. Depois da mudez, veio-me o desinteresse. Os poetas mortos foram morrendo um a um na minha estante por abandono. E tantos romancistas, cronistas, ensaístas e toda a variedade de mestres da prosa também. Pouco a pouco já não via jornais. Não sei porquê, mas acontecia assim. Como da noite pro dia, comecei a descamar literatura, até fazer-me sozinho e nu. Era o fundo do poço, era um buraco sozinho,um calabouço, um suicídio. Era falta de inspiração. E de todos os males, eu não estava preparado para este. Passei semanas olhando para as paredes do meu quarto, para as pessoas que passavam nas ruas, como os cachorros caminham, e renovei minhas músicas, meu guarda-roupa, minhas fotos. As emoções não vinham. Como quem vai para a guerra, peguei papel e lápis e me dispus a passar a tarde inteira, nem que fosse para construir uma única oração insubordinada a essa minha praga. Conto, no mínimo, sete boas derrotas. Somente frases curtas, sem graça e amargas. A essa altura, haveria solução? Mas meu mal, agora sei meu mal, foi ensaiar meus sentimentos em folhas de papel. Eu sempre declamei tão alto minha liberdade, e ao pressionar minha espontaeidade, acabei algemado pelo fato de querer forçar o que não posso. Esqueci, que escrever é o ato, simples ato, da exposição do que amo, do sorriso humilde de sonhar e sentir.  E não sou e não é nada além disso. E no momento só consigo sentir uma coisa; que voltei, que vou varrer a casa e, sinceramente, que estou pronto.

7 comentários:

Malveira disse...

ótimo.

Ariela disse...

Qualquer comentário meu será vago perante o que já foi dito.
Acabo de passar por quatro meses sem a menor inspiração e nunca vi tal situação tão bem representada.

Meus sinceros parabéns!

Jυℓyαnα ツ disse...

Sei como é simplesmente não conseguir expressar o que vive em você...
E que bom que estás de volta.


;*

A Escafandrista disse...

queria copiar uma parte do texto para citar aqui e não consegui rs mas as 3 ultimas linhas do teu texto são as mais preciosas e u sabes fechar com chave de ouro as tuas prosas. Lindos textos, Cris. Muito obrigada por retornar ao escafandro. Saudades.

Danny disse...

A escrivaninha pode estar empoeirada mas as mãos dão formas cada vez mais lindas aos vasos...

;)

Jéssica Trabuco disse...

Bem vindo de volta então :)
E faça das letras a sua liberdade e não uma prisão.
Escrever é para nos fazer viver e não para nos acorrentar.

Lucid Nightmare disse...

Maravilhoso U.U