As preces


















 Foto: © Cesarr Terrio


E essa noite segue longa demais. A vida parou de acontecer em algum momento da madrugada. Ê covardia! Sou muito pequeno diante a noite; o palpitar medroso de meu coração não é lá grande coisa. Como um menino juntei as mãos, rezei sem emitir uma só palavra; do fundo de toda a tristeza eu sei que foi alta a minha oração. Chamei por Deus. - Ah, Deus, alivia meu coração! E Ele não falou nada ao meu ouvido. A chuva caiu tímida, escorrendo por todas as casas da cidade que se apagara em silêncio. Foi uma resposta. - Não é só a ti, pirralho que chora, é a todos os homens! Ecoou entre a garoa e a solidão daquele momento. Senti-me impotente. Porque a resposta não foi solução e eu ainda continuava sem saber o que fazer. Enxuguei a última lagrima que escorria no rosto com a mão que outrora orava, a chuvinha continuava ali, benzia os que dormiam. Só entendia como um castigo. Precisava de uma estrela guia, de um anjo que me ouvisse ou talvez daquelas dádivas que ajudam mortais a resolver o mundo. Mas eu não compreendia que, em verdade, a chuva era pra ser um alívio. É sempre necessário saber que mágoas não se guardam no peito. Mas é difícil. - Deus, é muito difícil. Dessa vez gritei, desafiando o silêncio do céu acinzentado sobre mim. E tudo continuou como antes, não resisti, encostei-me indignado no muro. Cantando minhas velhas músicas tristes para que se fizesse justo o choro que voltara a me fazer companhia. - Sossega o coração, menino, que tristeza nunca resolveu problema! Olhei para o lado no susto, era uma velha enrugada, balançando numa cadeira pra frente e pra trás, aproveitando do mesmo telhado que eu. De onde saíra? - Quem que a senhora é? - A Amargura! Respondeu-me suspirando, voltando a se balançar. Fiquei um tempo calado até a velha pôs-se a falar: - Que mundo que anda engraçado! Tem povo triste pra todos os lados, regando jardim todo dia crentes que esperança nasce em quintal. Nasce não, nasce não... Inveja come, meu filho, essa praga. E quando não come, a própria Vida se encarrega mesmo. Tristeza é uma condição, ninguém entende, ficam aí praguejando pelo mundo. Tristeza cai pra todo mundo, por que todo mundo tem seus fracassos. E tem escolhas erradas, e teve as vezes que simplesmente não fez nada mesmo e das vezes que aqui e ali deixou morrer um sonho. Ah, e sonhos também morrem, sempre prematuros, abortados. E o grande desafio é não escolher a perdição. Pouco, pouquíssimos! . Terminou assim. Levantou-se com um guarda-chuva marrom e foi caminhando na garoa até desaparecer. Restara o silêncio. A chuva continuava. Sentei na cadeira da velha: para frente, pra trás, para frente, para trás, para frente, para trás, - que a vida siga!, foi minha última prece antes de dormir.

4 comentários:

Luna Sanchez disse...

Como eu queria conseguir colocar em prática essa teoria de que tristeza não resolve problema...

Seria muito útil pra mim.

Excelente o teu texto, gostei imenso.

=*

Carolyne Mota disse...

A vida segue, é isso mesmo!
Você também mudou Cristiano, suas palavras tendem a uma verdade infinita e uma profundidade relevante.
A vida é mesmo assim, cheia de altos e baixos, o jeito é ignorar os baixos e seguir adiante, apesar das dificuldades, estamos sempre expostos a tudo nessa vida, é preciso estar preparado.

Abraços.

Angella Reis disse...

Lindo texto! Gostei bastante das tuas linhas e a finalização foi perfeita. bjs

Angella Reis disse...

Ops comentei no texto errado. Referia-me ao texto acima. :)) Escreves bem. Seguindo-te.