Sempre fracassaremos


















 Foto: © Cesarr Terrio




Eu não vou permitir, nunca, que morram em mim as promessas  de quão infalibilíssimas são as esperanças que eu tive. Sempre que uma morrer, por favor, dai-me novas. Outro dia estava fazendo a contabilidade deficitária do quanto ganhei com o amor: foram sempre doces e gentis miragens de tempos que nunca vieram e de amores que nem chegaram a rebentar por aqui, perto. Para cada um desses fracassos, reguei com paciência a ternura que ainda periga no meu peito, quem sabe, na fé de que a infertilidade jamais se instalasse. Mas não é algo que eu possa decidir, que caiba a mim: têm coisas que simplesmente morrem. A vida bem sabe que tentei; distribuí amor o quanto foi possível de minha parte, não aleatoriamente, não desesperadamente, mas todas causas que, mesmo eu acreditando piamente, provaram-se fracassadas. Eu não saberia mentir: dizer que nunca me permiti, dizer que o sofrimento foi maior que o esforço, dizer que me arrependi. Jamais. Nada em mim foi imprudente. Todas as vezes que dei meu coração, foi de coração. Então, que haja sempre uma resistência bonita em nós: toda vez que a vida for movediça, que a gente saiba não perder a gentileza de somente se retirar e fazer abrigo em outro canto. É sempre possível, é sempre possível; repeti comigo até o coração sossegar.



# Para Ana Júlia e Cássio Lima, cuja ternura ainda reside, mesmo a sol e chuva, neles.

2 comentários:

A Escafandrista disse...

Oi, Cris. Saudades desta oficina onde as palavras são tão bem trabalhadas. Adorei o texto, quando vi o título, corri para ler seu texto em busca de que algo nele pudesse me dar uma luz... bjs.

Laura Ribeiro disse...

E as esperanças que vêm e vão. Que ficam e desvanecem. Essas esperanças que sempre enchem nossos olhos do mais puro brilho, mas que por algum motivo também podem ofuscar nosso sorrir. Senti no teu texto muito do que senti e passei há tempos atrás. Entregar-se pra valer... Confiar teu coração a algo ou alguém, mesmo que lhe seja devolvido repleto de marcas e feridas.

E de tudo que escreveu, o desfecho mais belo foi a foto que foi como se dissesse: ei! todos nós somos amor, poesia e esperança. A diferença é que alguns não têm capacidade de sentir assim.