Impetuosa















 Foto: © Cesarr Terrio


Sei que você ainda vai aparecer novamente. Vai me contar as mesmas coisas lindas, conversaremos dos sonhos outra vez, e você sabe: depois sai por aquela porta e me deixa sozinho. Você promete, moça, sempre promete que não haverá tristeza em nossas vidas, se não as nossas, a minha; cada intervalo são dias e em cada um deles morre mais a certeza que outrora eu tinha de que haveríamos de ser para sempre. Você não sabe, moça, mas pensei várias vezes em te engaiolar. Mas seu voo é desmedido, é de beleza muito grande, muito maior do que qualquer coisa que eu pudesse te oferecer em troca. No fundo, não ligo; não mais. Fossem outros tempos eu me culparia pela sorte que tive e não cumpri. Eis que surgiu você na minha vida e agora só restou essa sombra vagarosa que suas asas projetam enquanto rasgam a luz e o céu. Às vezes, mas só às vezes, essa vagarosidade me faz bem. Era tanto céu azul naquele momento que eu me senti pequeno. Não dessa pequenez que vemos todos os dias nos becos e nas esquinas, nas lágrimas que secam ainda no contorno do rosto; demasiada, subitamente já não mais me cabia a bondade que outrora eu te prometera. Tentei tocar teus dedos, mas alguma coisa me avisou que eu não podia. Recolhi minhas mãos sobre o colo: é terminantemente invadir o sagrado de cada um, ainda mais o nosso. Então pus-me em silêncio, profundissimamente, na espera de que qualquer coisa acontecesse e rompêssemos a névoa muda e melindrosa. Naquele momento, sabemos, nossos olhos esfumaçaram e negarei eternamente que foi choro o que você não viu. Tomei a coragem de suspender nossos desaventos e não te encontrei por ali. Em canto nenhum, em canto nenhum, nem mesmo no meu coração. Nada disse, nunca voltou. Distante, bem distante, em que por mais que os olhos desafiassem a esparsa névoa do horizonte, findariam somente por perder a cor; por onde andaria você? Por onde andaria o meu amor?


3 comentários:

A Escafandrista disse...

Oi, Cris. Poxa que saudades enormes de ler vc. Mas não vou aqui ficar elogiando seu texto nem a sua escrita. Sim, são sempre lindos, mas só posso falar da sensação que tive ao ler vc, agora, é como se pudesse ouvir sua voz (que eu nem conheço) e ver cada movimento, olhar, expressão. É como se pudesse enxergar através das linhas, das letras, das formas. Incrível, meu amigo. Incrível.

Luria Corrêa . disse...

Mesmo indagando-se de onde estará o amor de antes, você ainda a ama. Ama pelo que ela é quando ainda assim o magoa e o confunde. Mas você a ama, isso é certo. Só tenho a desejar-lhe boa sorte nesta jornada em busca da compreensão de si mesmo quanto ao que será daqui pra frente, porque e como será. Parece pessoal, mas é porque eu sei como é. E não acho legal.

Bom fim de semana, beijos.

Laura Ribeiro disse...

O texto mais lindo, mais emocionante!Espero que esse teu amor não te abandone com lágrimas nos olhos e que te dê os melhores sorrisos. Mesmo que longe, mesmo que apenas em teu coração... Fique bem.