Missa de décimo quinto dia






Sou daquelas pessoas que amam, mas não especificam o motivo. Amo porque o verbo amar é grandioso demais para que possamos medi-lo. Quando eu amo, o verbo assume conjugação maior que o imperativo, e todo amor que há se põe a amar. Porque quem ama assume a modalidade mais bonita da vida: amamos porque se cabe nosso o direito de amar. Conheci-te descrente, admito. Branquelo e cheíssimo de pintas pretas, com um cara de imbecilidade que não tive parâmetros para adjetivar. No primeiro momento fostes estúpido, no segundo, mais ainda, e no terceiro ficastes sobre duas patas para me abraçar. Existem dois tipos de abraço: os convencionais e aqueles que, de tão inusitados, nos põe a abraçar também. Soltei um sorriso vasto porque sempre soube: precisamos de abraços na vida. Você foi passando por aquela porta e entrando na minha vida. Todas as nossas histórias ficarão para sempre entre todas as vezes que brincamos na cozinha, que dormistes na minha cama e que deitamos nas lajotas do chão do quintal, sob a árvore de flores rosas e deixamos a tarde escorrer nos ventos que rumam para o para o sempre. No dia que você não mais passaria por aquela porta, ergui a bandeira de meu luto em sinal do único gesto respeitoso que me cabia. Andei silencioso por essas últimas noites. Quando ninguém mais escuta, abraço meus joelhos e fico entre risos frouxos e finas lágrimas cadentes. A cada uma que traçou o caminho do meu rosto, te fiz um pedido. Amo você. E sinto-me honrado pelos quase três anos em que fostes meu amigo de excelência, em pequeníssimos gestos que, olhando de fora, jamais nos entenderam e, se olharmos bem aqui dentro, nenhum de nós dois nunca pediu explicações. Amar é muito forte, especialmente quando somos amados e correspondemos com nosso amor todo de volta. Muito obrigado; você bem sabe que sou muito grato. Não depois de sua morte, mas pelo quanto ensinaste-me em vida: a ser alegre, a ser feliz e ser contente pela simplicidade que é estar em boa companhia. E a gratidão é dessas coisas fulgurantes que exorciza as culpas e alivia o peito para que, no fundo, no fundo, nos sintamos um pouco mais plácidos. Que a saudade que eu sinto permaneça enquanto estas lembranças lindas que eu tenho de você. Porque a vida encheu-me de saudades e saudade é a única palavra que me define. O mundo deveria entender um pouco mais de lealdade e quem sabe não seríamos mais felizes?
Desejo-te sorte, onde quer que estejas. Amém.

#Para Orube: um testemunho de amor nessa vida.



3 comentários:

Flora Fonseca disse...

Realmente conjugar o verbo amar e gratidão em uma mesma sentença, é uma oportunidade para poucos e que deve ficar eternizada em nosso coração. Porque estou por aqui sempre, :*

Brunno Lopez disse...

As vezes é bom lembrar o amor da importância dele.
E foi isso que você fez em todas as letras desse post.

Carolyne disse...

Sua definição de amor é a mais pura e linda que já vi. Coisa que só sabe quem ama de verdade. Belíssimo texto! Já estava com saudades daqui.