20 badaladas



Soprei a chama translúcida da passagem; seja qual fosse o lado que olhasse, pensava ser tudo feito de breu. Não fossem os profundo traços dos esforços e a poeira dos anos que compõem camadas e camadas da pele, nem mesmo eu teria notado o sutil trabalho de vida, assim, tão bem feito. Tudo é sempre uma perspectiva da vista. Não me sinto nem um pouco diferente, só cansado. Mas desses cansaços que pesam s
obre os ombros e pendem o corpo numa cortês reverência ao tempo que passa impiedoso. Nos meus olhos ainda habita o castanho da criança sorridente que eu sou, totalmente desprevenida, e também sou cheíssimo de palavras idosas, ora!, e tenho uma expressão carrancuda, egoísta, mas amortizada nesse repetir cotidiano desde sempre. Seja uma coisa ou seja outra, no fim, sou mesmo feito qualquer coisa, desse amontoado de memórias inomináveis e de toda uma gratidão que é muito importante ser dita. A minha palavra é de gratidão, essa coisa tão absurda que é agradecer por tudo que nos faz tortos. Não fossemos os imensos nós que me trançaram nesse destino que nos acontece todos os dias, não haveria motivos de viver surpreendendo-me com a vida, tentando compulsivamente entendê-la enquanto entendo cada vez menos, cada vez menos, cada vez menos. Absurda sim, particular de cada um e, ao mesmo passo, nossa. Num dia de luz tão fraca, é imbecilidade ficar sustentando muralhas. Tive o cuidado de passar a maior parte do dia de hoje descalço, andando com uma serenidade que nunca tive e colhendo votos de felicidades aqui e ali ou onde quer que fosse. Todos de bom grado, ainda creio. A grande maioria só pude retribuir em pensamento, a cada um o que lhe cabe, o retorno epistemológico e recíproco das boas coisas que nos são dadas. Só pude retribuir em pensamento, especialmente aos votos que vieram de longe, em distância ou em passado, carregados pelos ventos dos bons presságios de todos que depositaram um mínimo de tempo em me querer bem. A todos que me querem bem, do fundo do coração, os quero todos também. Que a fé seja inabalável, que a sorte seja presente e que a nossa certeza seja absoluta. A única constatação de tudo que foi dito é que, embora costumemos pensar, nunca estamos sozinhos. A vida se abre nas infinitas possibilidades de sorrisos e, se for para sentirmo-nos especiais, bastamos fechar os olhos um pouquinho: esperança é feita por todos. E quando entendermos o sentido, ainda que geral, mas pouco específico, estaremos reunidos num gigantesco abraço avarandado, com direito a pontes e janelas sobre os bons momentos que podemos passar juntos. Muito obrigado a todos que me fazem feliz.

2 comentários:

A Escafandrista disse...

Alegria ao ler-te. Sempre me encantas com a tua visão poética das coisas, a forma como falas sobre o tempo e a vida. Grandes beijos.

Brunno Lopez disse...

Sempre passo aqui mas é fato que estou deixando a desejar no quesito 'comentário'.

Dessa vez não poderia me abster pois o texto está com o grau de abstração que mais me agrada. E ainda nos carrega para sentimentos bons, isso é sempre importante.

Gosto de sua escrita. Acho que perdi um pouco dessa essência em minha escrita, fico feliz em encontrar isso aqui.