Questão dos guardados












Talvez eu tenha aprendido que toda mão que segura também dá um tapa. Talvez você também tenha aprendido. E aprendera que o mar também afoga, que o céu também escurece e que o amor também acabada. Não, hoje, amor não. Não quero falar de amor, está virando hábito. Quero parar pra dizer que estamos demasiadamente acostumados a ter nosso coração trancado numa gaveta. Renegamos nosso coração, que trágico. Como aquele presente inútil, que por respeito você guarda ali para nunca mais, sabe? Pois bem, e que injúria! Mas apesar de incoveniente, aquela minha praga pulsa e sente. Mas você bem sabe, que em uma gaveta só há poeira e escuridão. E não conheço nada que mereça ser desperdiçado assim. Seja como for, estamos adestrados da mesma forma. Guardamos tudo que não convém. Calamos quando é pra se falar mais alto e abrimos mão para quem pede primeiro. E vamos desistindo de tudo que é nosso por que esquecer - no caso esconder - soa melhor. E desistindo de tanta coisa assim, corremos o risco de desistir de nós mesmos. Por que a gente entrega um sorriso e acostumou a não receber outro de volta? Por que de manhã já não nos desejam bom-dia? É, eu também não sei as respostas. Se bem que queria. E, intriscecamente, é por causa disso que desistimos de tantas coisas: há perguntas demais. E na mesma gaveta onde selamos nosso coração, vamos enchendo com as perguntas, com as mágoas, com os sorrisos recusados e os bom-dias não ditos. E pra tantos questionamentos, esperamos que as respostas nos achem, a parte mais patética. Nós sabemos bem, muito bem, que toda grande verdade é tetraplégica. O que vem fácil, é somente devaneio. Nós que as busquemos. Pois a cada uma que achamos, vale o esforço de esperar. Que esse esperar não tenha o significado de deixar o tempo passar, mas sim o verbo oriundo de esperança. Mas depois de perceber que tudo sempre gira em torno das perguntas, vamos fazer o que? Sorrir mais? Brincar mais? Correr mais? Falar mais? Sofrer mais? Se não preferir, eu aconselho a gaveta. Afinal, ela ainda está aí. Eu sei que está. E você nunca vai esvaziá-la. Nem eu. Ou talvez, correr atrás de cada resposta seja a melhor resposta. E talvez, ah! talvez a melhor resposta seja a que não quis logo mais acima. Toda mão que segura também dá um tapa. A melhor resposta alguma vez deixou de ser o amor?

5 comentários:

Rodolpho Padovani disse...

Quantas vezes nosso coração machucado preferiu estar na gaveta a sofrer de novo? É tudo questão de correr atrás das respostas verdadeiras e não apenas se iludir com os devaneios.
Ótimo texto...

Abraços!

Nini C . disse...

eu aprendí e acho que não desaprendo mais, rs... excelente Cristiano ;)

Leonardo Filizolla disse...

A melhor saída é o amor próprio, acima de tudo.
Já dizia Augusto dos Anjos: 'o beijo, amigo, é a véspera do escarro'
Belo texto, te seguindo. ;D

A Escafandrista disse...

Oi, Cris. Feliz de encontrar novos textos aqui, gosto da tua escrita. Respondendo a vc no meu ultimo post: a expressão "vai virar poesia" é de autoria da minha parceria, mas acho que não há mal algum em vc usar, é só uma frase, apesar da poesia ser muito significativa para ambos os autores. te agradeço a visita. bjs

Carolyne Mota disse...

"Toda mão que segura também dá um tapa."

Essa frase é mais que uma afirmação.
Não da mais pra confiar e amar incondicionalmente, a não ser que aceitemos a sentência de sermos feridos e traídos por quem amamos. Isso sempre acontece, nem tudo é como a gente quer e pensa que é.

Abraço.