Decadência impávida
















Foto: © Cesarr Terrio


Eu não tenho mais visto o céu, sabe? Tenho saído tão apressado todos os dias de manhã que não olho mais para cima, nem para os lados, nem para canto nenhum. E quando chego à noite, chego cansado. Não lembro de olhar pra cima. Não lembro a última vez que vi as estrelas. Realmente, não lembro não. Aliás, ainda há estrelas no céu? Uma boa pergunta, né? Se você tem visto, me conta, talvez você possa me explicar como é a sensação de parar e observar as coisas. Eu não tenho parado muito. Saio de manhã, volto à noite, durmo, acordo, saio de manhã. É claro que eu tô exagerando, é claro que tenho intervalos, mas eu preciso que você entenda: estou cansado, internamente. Eu lembro de um tempo que eu era bonito. Não fisicamente, que era bonito por dentro. Assistia todos os filmes que queria, baixava as músicas que gostava, sentava e passava tardes lendo livros, passava tardes com meus exércitos de palitos de fósforos em batalhas sem fim. Era tão bom! Havia uma mangueira no meu quintal. Belo dia cheguei em casa e ela não estava mais. Havia uma criança em mim. Belo dia procurei por ela e ela não estava mais. Alguém cortou a mangueira, alguém matou a criança. Restou um quintal azulejado, restou um homem frio. E também não sei onde foi parar minha bicicleta. Onde foi parar meu vídeo-game, onde foi parar aquela beleza toda. Minha vida tem sido regida por calças jeans, cobrança e medo. Eu não sei como vai a sua mas, do fundo do meu coração, desejo que não esteja igual. Você não mereceria isso, eu também não. Não é feliz perceber que as flores murcham, que o cachorros nem sempre estão de bom humor e que passarinho não canta, pia somente quando quer alguma coisa. Lembro que minha avó dizia: - Não arranca a flor que a planta chora! . Agora eu sei como a planta se sente, sabe? Procurar o que eu produzo de mais bonito e saber que alguém já levou daqui. Como eu dizia, eu já fui bonito. Restou uma carcaça, vazia. Quem quiser, leve-a também. Depois de tudo, não vai fazer falta mesmo. Não tenho vergonha de dizer que estou vazio, entende? Nem de dizer o que acho, nem de que às vezes choro, nem de perguntar as coisas. Se eu não puder fazer essa coisas, me diz aí o que é que eu vou fazer? Eu sou um humano, e somente isso. Ao contrário de muita gente, aceitei minha condição. Então se hoje eu sentei pra dizer que tou cansado e contar como tudo costumava ser bom, é porque é importante pra mim. Provavelmente para muita gente não vai ser, provavelmente para você não seja. Então tenho que perguntar de novo: o que é que eu vou fazer? Deixa, não precisa responder.  Estou desacreditado de tudo mesmo.

10 comentários:

Jυℓyαnα ツ disse...

A primeira coisa que você deveria tentar fazer é procurar essa criança que se perdeu quando a àrvore deixou de existir.
É ela quem vai te mostrar um caminho e te dizer de forma à você acreditar que tudo pode, e vai, ficar bem melhor do que você pode ver hoje.
Estou o dia todo com um trecho de música na mente e agora vejo que era porque eu precisaria compartilhá-lo com você:

" - (...)Tudo vai virar passado no futuro
E dessa vida não se leva nada(...)

(...)E quando o sol invade os olhos
É só pra te lembrar
Que o bom da vida não tem preço
É hora de acordar(...) ♪"





;*

Rodolpho Padovani disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodolpho Padovani disse...

Cristiano, esse daí além de maravilhoso é tbm o meu texto, sério, apesar de seus desejos de que ninguém tivesse essa vida, eu tenho.
Perco o tempo com coisas sem importância e esqueço dos detalhes pequenos da vida, fico adiando as coisas e qdo vejo já é tarde demais, preciso reanimar minha criança interior e dar calor ao homem frio que está no lugar dela.
Eu entendo como se sente e como é esse cansaço interno.
Não tenho respostas pra sua pergunta, pq eu me faço ela constantemente. Se encontrar a resposta antes de mim, me avise.

Abraços!

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

E você Deus, não vai dizer nada? Como ele era transparente demorei a entender que ele vivia numa espécie de caixão sem portas, que alguns chamam de céu. Retiro-lhe o véu da consciência e o toco para ver se ele reage. Ao menos você, fale comigo Deus. Quero acreditar que em seu infinito silêncio haverá alguma resposta. Tenho engarrafado aviões com vôos metafóricos na tentativa de encontrar uma pista de pouso na vida real. Amanheci velha. Não caibo mais nas minhas roupas de Super-herói. Levante-me do chão. Está caindo a temperatura aqui na terra. As palavras se congelaram em meus lábios, antes que eu pudesse pedir para que você ficasse. Faz tanto frio aqui dentro que não sinto mais as extremidades do corpo. O que vai acontecer quando eu não me lembrar de mais nada? Sem perceber o que fazia, aproximei-me dele e estendi minhas mãos até estar perto o suficiente para poder tocá-lo. Não consegui. Estou petrificada. Olhe nos meus olhos, Pai. Passa um filme de nós aqui dentro. Por mais que eu me esforce só consigo lembrar de mim ainda criança. Eu não posso te ver, mas sinto a tua presença neste momento. Prometa Pai, que se eu não desistir de mim agora, o Senhor vai me aquecer. Vai derreter esta neve e transformá-la em um lago que nós dois nunca brincamos. Pode ser que o sol apareça amanhã de manhã e nos encontremos para aquele passeio de barco. Desta vez, ancoraremos num porto seguro. Minha canoa sempre esteve furada. Ainda assim eu seguro firme no leme. Porque que no barco da esperança, o que vai contar é a força com que se puxa o remo da fé.



Menino...


É preciso que não deixe morrer o jardim de dentro de ti. Vamos aguardar o florescer...


Te abraço sem saber porque.

Silvana Nunes .'. disse...

Conheço bem esse sentimento. Belo texto.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... e MEU CADERNO DE POESIAS, desejam uma excelente semana para você.
Saudações Educacionais !

E. disse...

Você tinha seus exércitos de palitos de fosforo, meu irmão tinha times de futebol, todos pintados de cor de caneta diferente, os fosforos sumiam da cozinha e paravam em sua gaveta. Me lembrei disso. Que também, por um lado, lembra a minha infância. Pois, eu tinha o prazer de bagunçar todo seu jogo. rs.
As vezes é bom parar para respirar. Esquecer um pouco das responsabilidas e tornar-se por alguns momentos, um irresponsavel feliz.Olhar o céu, falar besteiras, ser uma criança. De vez em quando faço isso. Respiro.
Adorei seu texto *-*

Carolyne Mota disse...

Cristiano, acho que não sou a pessoa certa pra te dizer o que fazer, mas me importo com você, porque já passei por isso, sei como é ruim perder a criança inocente, que sorri de qualquer raio de sol que brilhe, aquela criança pura que não tem medo de dizer o que sente, de brincar com coisas simples, aquela felicidade no olhar que há muito tempo não tenho mais. Sinto saudade do quão bom é ser criança, insento das infelicidades do mundo, vivendo feliz no seu mundo sem dores. Mas basta crescer um pouco e a vida começa a mostrar suas armas.

Mas não podemos deixar morrer essa inocência, essa alma de criança que carregamos desde pequenos..
Um abraço, Carol

Carolyne Mota disse...

Ah, te adicionei lá!
Beijos

Nini C . disse...

Estrela que o céu possui,
Estrela que há muito tempo morreu,
Estais ainda acesa, sei que ainda não me esqueceu.

Lembra-te dos pedidos que eu te fazia,
aqueles dos quais você nunca conseguiu tornar realidade,
eu te desculpo agora, mas preste atenção qual foi tua utilidade?

Estrela maior,
Não deixe-me chorar,
lembra-te das noites, que tu me fizeste flutuar?

Estrela menor,
faça-me rir,
não falhe,
não deixe minha felicidade partir.

Céu imenso,
Cheio de brilho,encanto e magia,
Poderia eu ficar aqui,
admirando-te até a neblina da manhã tocar meu corpo?

(silêncio)

Obrigada querido céu!



Lendo teu texto lembrei desse poema, talvez poq o céu é a minha unica companhia ultimamente e ver voc falando que não tem visto o céu me deixou meio triste. É unica coisa que funciona comigo quando estou triste, é o que me faz esquecer de tudo. Voc devia tentar. Mas eu sei bem como é se sentir assim. Mas um dia a criança volta, creio que sim, poq um dia sentiremos saudade do colinho da mamae, de jogar video game com os amigos, de comer brigadeiro... Um dia quando as obrigações tiverem cessado um poukinho a criança volta. No momento estou tentando busca-la. Texto bonito e sincero. Adoro vir aqui e te ler Cristiano. Beijo.

Pontos de Ligação disse...

Querido, animo-me a dizer que estás mudando, apenas. Isso assusta sempre, eu sei, e não importa o que digam... Mas porr experiência própria, estás passando por uma faze necessária a todos, em breve estarás transbordando novamente! É preciso esvaziar-se para encher-se do novo, viver o novo e sentí-lo em cada mínimo detalhee...
Espero que passes bem!

Letícia